domingo, 22 de janeiro de 2017

1.000 Horses In My Herd (10)

Há cerca de um mês, eu havia publicado e lançado meu livro ''Os homens nascem livres para serem condenados '', que segundo meu amigo Mcmillan era ''uma obra que melhorava à medida que avançava '', mas cuja pior crítica que merecia o primeiro capítulo era a de que ''alguém poderia vir a lê-lo '' . De fato , agora que alcançara o posto mais poderoso do mundo, a paródia de George Soros contida no primeiro capítulo me parecia terrivelmente exagerada ; uma anedota financista que feria (talvez ) todas as cordas do meu instrumento literário, menos a verdadeira . Não devia ter perdido tanto tempo rebatendo aquele velho surtado e ressentido, algo relativamente fácil na minha nova posição, quase um tentação. ''Ele fracassará , é uma enganação '', escrevera Soros no NYT, aproveitando o lançamento do meu livro para jogar pragas sobre meu governo. Eu gastara mais de quinze laudas contra-argumentando suas velhas críticas com demasiada veemência : ''Um pouco como uma criança num circo querendo saber quando aparecerá o palhaço ou o leão no picadeiro '', escrevera eu no começo do livro. O que salvava o primeiro capítulo (porém) era a cena final , da moça se desfazendo num ataque de fúria ao tentar bater no namorado grandalhão .  Na verdade , no conjunto o primeiro capítulo tinha ficado tão mau que mais parecia uma paródia dos artigos políticos na Time . Eu relera todo o livro na noite anterior ao convite para comparecer à um programa de televisão na NBC, e aquela leitura deixou - me perplexo . ''Cuidado com as provas de desempenho dos governos passados em finanças (dissera eu na tv) pois se os livros de história abrissem as portas da riqueza das nações, as 400 empresas da Forbes seriam uma biblioteca '' . Mas aquilo não parecia coisa minha : naquele tipo de entrevista eu era sempre muito lacônico e jamais poderia ter predito o sucesso de alguns golpes espetaculares meus naquela noite  . Fora daquele contexto televisivo específico , eles mal teriam passado de cabeçadas de futebol americano .  ------ É inegável que (eu disse ao vivo ) com o fim da União Européia , num futuro remoto poderia efetuar-se uma proveitosa aproximação franco-alemã, a qual seria proveitosa não só para os dois países , mas também para a América ; a França não tiraria só desvantagens  ; o comércio muitas vezes é o alvo errado quando se trata de proteger os empregos de uma nação e, com exceção do Financial Times, os jornais europeus não entendem nada de economia (.) até seus plágios estão cheios de erros de cálculo (.) Por isso (inclusive ) decidi só voltar a pensar nas tarifas sobre importações chinesas depois de garantir a total reestruturação dos setores industriais americanos realmente capazes de substituir tais importações . O fruto talvez ainda não esteja maduro e a última coisa que precisamos no momento é de uma demanda crescendo no vácuo. Se tivermos que pedir à concorrência estrangeira que convolem conosco em justas bodas , correremos o risco de fracassar sob uma exurrada de bordoadas multilaterais espalhadas pelo mundo (.) ----, eu disse . Mas o único erro de que eu me lembrava , até então , no meu governo , era o de ter feito, há uma semana , na imprensa, um elogia rasgado aos livros de Sidney Sheldon, acompanhados de algumas observações mordazes sobre política externa . ----- Parece que nas pessoas responsáveis pelo diálogo internacional de hoje , e essas são pessoas mundanas, o espírito esgotado pela atenção naquilo que ainda há de ocorrer dentro de uma semana ou um mês , só confia um mínimo de energia ao Inconsciente Coletivo e não possui verdadeira clareza. De repente , temos todos esses políticos mundiais , esse espetáculo de exaustão total  (moral, físico e psicológico) , esse infindável desfile de marionetes liberais parecidas umas com as outras, todas muito bem educadas, grisalhas , enrugadas, sem suco ou autoridade real como os jornais europeus , que se sucedem na ponta dos pés nos postos mais poderosos do mundo, sempre com a mesma expressão, as mesmas idéias equivocadas e a mesma insipidez. AS MESMAS MENTIRAS . Acho que minha principal força está justamente nisso: que num mundo desprovido de surpresas , eu me encarreguei de toda a imprevisibilidade possível , pois é nisto qu se encontra a capacidade de persuasão política .  Boa parte do povo sente que eu não preciso esperar pelo colapso iminente para empreender mudanças drásticas no meu governo, e isso produz um magnetismo que (para bem de uns e mal de outros) se assemelha muito à uma digestão bem sucedida das questões diárias atiradas à minha mesa de trabalho . MAIS AÇÃO,  MENOS REAÇÃO (.) ----, eu disse, ocultando por trás de um discreto sorriso indulgente minha ''anti-figuri'' de intelectual, por causa da exaltação física de rapaz que eu aparentava . O entrevistador parecia pensar : ''Que será que ele tem , está louco (?) '' ----- Reconhecer os presságios e agir com prontidão , nenhum jornal é capaz disso. E sem isso, o fracasso é uma certeza . Guardo na minha gaveta uma lista exaustiva das piores ocorrências políticas, econômicas e militares do mundo e , com ela , um conjunto de planos de contingência emergênciais . Se Davos  não gosta de mim é porque sentem que posso ter sucesso contrariando as principais premissas do liberalismo absoluto . Certamente não lograrei isso lendo panfletos liberais europeus. O catecismo da elite universal tornou-se tão mundano que a maioria dos diplomatas não se lembra nem das próprias posições que adotaram quando a locomotiva do mundo sai dos trilhos em algum lugar . Particularmente , prefiro pensar em cláusulas com encargos de cancelamento nos contratos públicos do que ficar buscando  vitórias de Pirro em meio à tresloucada guerra de ofertas multilaterais . Não sou exatamente um ''englishce'' (.) -----, concluí . Mas , na verdade ,  minha conversação, naquele momento , encontrava-se impregnada dos encantos das romarias bretãs, e como diria aquele grande poeta que foi Pampille, do ''acre sabor dos crêpes de trigo preto cozido num fogo de juncos ''. ----- Mas agora falemos um pouco do livro do Sr. , Mr. K . Porque ''Os homens nascem livres para serem condenados '' (??) -----, perguntou ele . Eu havia sido definido há poucos dias como  o ''Novo Grande Aloprado '' das letras americanas  pelo NYT, o que era um título antipático para um Presidente da República em início de mandato ; mas ''Grande'' , por outro lado , era uma beleza para meu ego , e talvez pelos olhos da NBC fosse possível fazer o público ver a coisa por outro prisma . Por isso, continuei : ----- A verdade é que hoje não temos mais qualquer compaixão pelo ''livre-arbítrio'', mas essa impaciência precisa institucionalizar-se novamente. E sabemos há muito o que é o livre-arbítrio: o mais infame e brilhante truque dos teólogos antigos para se responsabilizar os homens e torná-los dependentes das instituições... refiro-me (obviamente) apenas à psicologia da responsabilização (.) Em todo lugar do mundo atual onde se procura por ''responsabilidades '' hoje, costuma ser o ''instinto de querer punir e julgar ''que está a procura delas .  O presente mundial está despido de inocência quando o explicamos pela vontade ou pelos atos de responsabilização : a doutrina da vontade foi inventada justamente para isso, punir e encontrar os culpados, e é isso que meu governo buscará. Arrogar novamente à América o direito de infligir punições. O verdadeiro cristianismo é uma metafísica de carrascos , e essa pode voltar a ser também nossa doutrina. Amém (.) ----, eu disse. Toda a seiva sanguínea da Nova Inglaterra não seria suficiente para explicar ao público televisivo, naquele momento, o sentido aristocrático das minhas palavras . Eu tinha bastante liberdade de espírito para apreciar , no que dissera ,  aquela graça napoleônica tão pura que já não se encontrava em nenhum jornal francês; nem na maneira de falar , nem nos escritos das autoridades atuais . Certamente não se encontraria ela nos frios pastichos liberais do LeFigaro , onde se dizia ''au fait'' (ao invés de ''en realité'' ) , ou ''singulièremente'' (ao invés de '' en particulier '' ) ,  ou ainda ''étonné'' (ao invés de ''frappé de stupeur '' ). Gauleses, gauleses enfim... Mas aqui nos propomos a sermos romanos, e minha explicação acabou soando como uma paródia furiosa do GOP, aos ouvidos do entrevistador ; e demasiado desvairada para conservar milhões de espectadores pacíficos em suas salas de tv americanas empoeiradas . O Show denominava-se KALENDAR  , uma produção noturna da NBC em que Harry Lapouge fazia os convidados sofrerem ao vivo com rara competência. Eu dormira apenas três horas, na noite anterior , mas estava sentindo-me bem e com excelente humor . ----- O Sr. tem uma fisionomia interessante (Harry disse) quando se encontra uma oportunidade como  essa para estudá-la, mas à primeira vista insinua-se a nós (público americano ) como a imagem  de uma mulher que conhece profundamente o encanto que possui e não irá estragá-lo com pinceladas ''demasiadamente modernas'', certo (?) Para começar , é um rosto bem pálido, e seus olhos piscam de um modo caprichoso que nada promete ao interlocutor senão ângulos e mais ângulos. Um labirinto (.) -----, ele disse. Mas com a mente de um Leucótoe presa naquele incenso de raciocínios rápidos nem toda a Babilônia midiática novaiorquina junta poderia me dominar ... aceso pelo fulgor do próprio facho ... ROMA versus BABILÔNIA (?) . ----- Você também está com bom aspecto, Harry. Obrigado (.) ----, eu disse. Foi meu cumprimento . ----- Gordo e formal, hein (?) -----, acrescentei. Meu desdém republicano pela mídia logo cedera a um vivo interesse em continuar falando com elegância . Sentia-me terrivelmente cordial, amável , representando uma cordialidade muito maior que a que sentia de fato . Meus olhos percebendo depressa tudo o que se relacionava à elegância num ambiente televisivo.E ao ouvir meu nome e meu ''título'' de Presidente de novo na boca de Harry , o ar indiferente, hostil e desdenhoso,  que me era tão peculiar , transformou-se num claro sinal de orgulho agregador . De repente , eu disse  : ----- Nada existe de mais constrangedor (eu acho ) do que encontrar alguém sobre quem escrevi demolidoramente e já não sentir aquela fúria de demolição . Bel et bien , uma ''questão política '' . Até engraçado. Talvez os promotores desse show de televisão  tenham tido a idéia de que eu ofereceria ao público uma guerra filosófica e literária diante das câmeras : vossa entrevista foi nitidamente calculada para acirrar as esporas de um galo de briga, e obrigar-me a falar do ''lado feio da Presidência dos Estados Unidos '' . Mas ainda  não chegamos ao ponto em que a entrevista se transforma numa competição de egos . Como você sabe , sou bastante bom na tv , e não preciso de muito tempo , ou de ''circunstantes'' , para tornar-me muito divertido  (.) -----, eu disse. E veio o anúncio. Silêncio  . Durante a pausa para o anúncio dos produtos , percebi que Harry marcara alguns pontos contra mim : ----- Que diabos , Mr . K ... (exclamou ele ) Não creio que o Sr. seja assim tão bom quanto diz . Mas deixarei esfriar o assunto no próximo bloco (.) ----, ele disse. O resto do show decorreu sem maiores acontecimentos. Saí do estúdio pensando : ''Sempre que cogito em algo de menor importância que possa fazer para seguir adiante com minha obra , sinto como se uma arte arrebatada e torpe, mal intencionada e vil , oriunda dos pesadelos da prisão de ventre,  do ermo flamejante da estagnação mental e do ''bloqueio criativo'' , forçasse seu caminho até o meu cérebro e tocasse algum instrumento miraculoso de feitiçaria nas profundezas psíquicas do Inferno . Assim, digo para mim mesmo : Rapaz , você já está mais do que maduro para negociar as possibilidades do futuro, também conhecidas como Alma , em troca do Ego , dos Miolos e do Sexo. O Céu não poderia (de fato ) ter uma imagem tão régia quanto à raiz do meu doce desejo presente''.

K.M.

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